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Controlo natural da acácia-de-espigas

Depois de autorizada a libertação do agente de controlo natural para a acácia-de-espigas em Julho de 2015, foram realizadas a primeira (em Dezembro de 2015, no âmbito do projecto INVADER-B*), segunda (em Novembro/ Dezembro de 2016, integrada no projecto INVADER-IV**) e terceira campanha de libertação de Trichilogaster acaciaelongifoliae em Portugal (em Dezembro de 2017, integrada no projecto GANHA***).

Qual a planta que o agente de controlo natural está a ajudar a controlar?

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Figura 1. Detalhes de acácia-de-espigas: da esquerda para a direita – aspecto geral, ramo em floração e vagens maduras com as sementes já totalmente formadas.

A planta a controlar é a acácia-de-espigas (Figura 1. Acacia longifolia; vejam como se distingue de outras acácias), uma das invasoras que causam mais impactes negativos no nosso litoral, por exemplo a nível das comunidades de plantas e no solo. Esta espécie produz um grande número de sementes que contribuem de forma significativa para a capacidade invasora desta espécie. Por um lado, as sementes são dispersas, por exemplo por formigas, criando novos focos de invasão; por outro lado, as sementes acumulam-se no solo (vários milhares por m2) e aí permanecem viáveis durante vários anos potenciando a capacidade da planta para (re)invadir e dispersar para mais longe. Neste contexto, procurou-se uma forma de controlo natural para ajudar a diminuir a quantidade de sementes produzidas.

Qual é o agente de controlo natural?

O agente é um insecto-australiano-formador-de-galhas, de nome científico Trichilogaster acaciaelongifoliae (Figura 2). Este pequeno insecto, como o nome comum sugere, é um formador de galhas (como os bugalhos dos carvalhos), que coloca os ovos nas gemas florais (e vegetativas) de acácia-de-espigas, promovendo galhas onde se formariam as flores e/ou novos ramos: sem flores não há vagens (frutos), sem vagens não há sementes, e sem sementes não há acácias-de-espiga novas. Ou seja, este pequeno insecto diminui a capacidade da acácia-de-espigas se reproduzir e consequentemente de (re)invadir e dispersar para novas áreas. Os testes realizados em Portugal e a experiência de mais de 30 anos na África-do-Sul indicam que Trichilogaster acaciaelongifoliae é um insecto muito específico que promove a formação de galhas apenas na acácia-de-espigas (nas várias sub-espécies); esporadicamente pode afectar espécies muito próximas filogeneticamente, como sejam Acacia melanoxylon e Paraserianthes lophanta (ambas Mimosoideae, e com comportamento invasor em Portugal), mas o efeito sobre estas espécies é considerado negligenciável.

Vejam como é pequena neste vídeo.

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Figura 2. Da esquerda para a direita: uma fêmea de Trichilogaster acaciaelongifoliae num ramo jovem de acácia-de-espigas, dirigindo-se para uma gema vegetativa; galha já totalmente formada por T. acaciaelongifoliae; corte longitudinal de uma galha de T. acaciaelongifoliae – é possível observar-se a câmara já vazia e o canal por onde o insecto terá saído.

 

Se têm dúvidas, vejam os prós e contras/aspectos controversos e ouçam esta apresentação.

 

Qual o ponto da situação?

Entre 20 de Novembro e 7 de Dezembro de 2015 decorreu a primeira campanha de libertação: mais de 400 fêmeas de Trichilogaster acaciaelongifoliae oriundas da África-do-Sul foram libertadas em sete locais ao longo do litoral Português e em Coimbra.

Da primeira campanha de libertação resultou a formação de cerca de 60 galhas em acácia-de-espigas, observadas entre Junho e Agosto de 2016, em cinco dos locais de libertação, nomeadamente no Perímetro Florestal das Dunas de Cantanhede (Tocha), na Mata Nacional das Dunas de Quiaios, na Mata Nacional de Leiria (São Pedro de Moel), na Reserva Natural das Dunas de S. Jacinto e em Coimbra. Considerando que os insectos vêm do hemisfério sul, e como tal precisam sincronizar o ciclo de vida com as estações do hemisfério norte, eram expectáveis dificuldades no estabelecimento nas primeiras épocas, pelo que a detecção de galhas no primeiro ano foi uma boa notícia! O agente de controlo natural Trichilogaster acaciaelongifoliae conseguiu completar o ciclo de vida em condições naturais em Portugal! A partir desta altura é expectável que o insecto vá sincronizando o seu ciclo de vida com as estações no hemisfério norte e consiga dispersar mais facilmente e se comecem a ver mais galhas, principalmente nos locais acima referidos. Se virem galhas de T. acaciaelongifoliae reportem-nas aqui e enviem-nos fotografias para invader@uc.pt

Entre Novembro e meados de Dezembro de 2016 decorreu a segunda campanha de libertação: foram libertadas mais de 1300 fêmeas  de Trichilogaster acaciaelongifoliae, também oriundas da África-do-Sul, em 19 locais ao longo do litoral entre Esposende e Marinha Grande. Na Primavera/Verão de 2017 foram realizadas monitorizações de forma a acompanhar o estabelecimento e efeito do agente de controlo natural em todos os locais onde foi libertado previamente:

  • – mais de 1100 galhas de T. acaciaelongifoliae foram detectados na natureza nos cinco locais de campo acima identificados, todos correspondentes a galhas de segunda geração – ou seja, nos locais onde as fêmeas que emergiram de galhas sul-africanas foram libertadas no final de 2015; o n.º de galhas teve um aumento notável, quando comparado com o observado em 2016.
  • – foram detectadas galhas num segundo local de libertação em Coimbra, possivelmente das libertações de 2015.
  • – até agora, nenhuma galha foi detectada nos locais onde as fêmeas de T. acaciaelongifoliae foram liberadas no Inverno de 2016. As temperaturas muito baixas no início de 2017 e o ano anormalmente seco podem ter contribuído para a dificuldade do organismo em completar o ciclo de vida nesta época.
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Figura 3. Trabalho de campo. Da esquerda para a direita: fêmea de Trichilogaster acaciaelongifoliae libertada; Francisco Nuñez, do CEF/UC, detectou galhas de T. acaciaelongifoliae; Isídro Seiça, do ICNF, a libertar uma fêmea de T. acaciaelongifoliae.

 

Uma nova campanha de libertação decorreu no Inverno de 2017, ainda com galhas importadas da África-do-Sul. As monitorizações dos locais onde foram feitas libertações irão continuar regularmente tendo-se recentemente detectado uma terceira geração de galhas (Figura 4) em alguns dos locais. No final da época de monitorização actualizaremos a informação aqui disponível.

 

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Figura 4. Galhas de Trichilogaster acaciaelongifoliae observadas em Março de 2018.

 

Resumindo

Depois de 3 gerações e considerando o desafio de atravessar os hemisférios e as condições de campo adversas observadas durante as libertações (principalmente ventoso e frio), o agente de controlo natural T. acaciaelongifoliae conseguiu produzir galhas de terceira geração em Portugal e está a estabelecer-se em seis locais.

 

Para saber mais sobre o controlo natural da acácia-de-espigas, ouçam esta peça da TSF, vejam este episódio do Programa Biosfera, uma produção Farol de Ideias para © RTP 2017 (sensivelmente a partir do min 7) ou vejam esta apresentação que fizemos numa Sessão de esclarecimento sobre o tema.

 

*O projecto INVADER-B decorreu de 01 de Julho de 2013 a 30 de Novembro de 2015; foi coordenado pelo Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra e decorreu em parceria com a Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Coimbra.

** O projecto INVADER-IV teve início em 01 de Julho de 2016 e decorrerá até 01 de Julho de 2019; é coordenado pelo Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra e decorre em parceria com a Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Coimbra e com a Introsys.

*** O projecto GANHA – Gestão sustentável de Acacia spp: controlo natural e outras metodologias para recuperação de habitats em Áreas Classificadas teve início em Março de 2017 e decorrerá até Fevereiro de 2020. Tem como beneficiários a Universidade de Coimbra (Líder do projeto; através do Centre for Functional Ecology – Science for People & the Planet), a Câmara Municipal de Figueiró dos Vinhos, a Câmara Municipal de Vagos e o RAIZ – Instituto de Investigação da Floresta e Papel. Participa ainda a Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Coimbra

 

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