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Qual a ligação entre espécies invasoras e alterações climáticas?

Por considerarmos de extrema importância traduzimos, com ligeiras adaptações à nossa realidade, esta publicação da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), em colaboração com o seu Grupo de Especialistas de Espécies Invasoras (ISSG), sobre as espécies invasoras e alterações climáticas.

 

  • As espécies exóticas invasoras são animais, plantas ou outros organismos que são introduzidos em locais fora da sua área de distribuição natural, e que promovem impactes negativos a nível da biodiversidade nativa, dos serviços dos ecossistemas ou do bem-estar humano.
  • Estas espécies são uma das maiores causas de perda de biodiversidade e, em alguns locais, são mesmo responsáveis pela extinção de espécies, representando também uma ameaça global para a segurança alimentar e para muitos meios de subsistência.
  • Prevê-se que os problemas causados pelas espécies invasoras sejam agravados pelas alterações climáticas. As alterações climáticas podem facilitar a disseminação e o estabelecimento de muitas espécies exóticas e criar novas oportunidades para que estas se tornem invasoras.
  • As espécies invasoras podem reduzir a resiliência dos habitats naturais, dos sistemas agrícolas e das áreas urbanas às alterações climáticas. Por outro lado, as alterações climáticas reduzem a resistência de alguns habitats às invasões biológicas.
  • É essencial que as espécies invasoras sejam incluídas nas políticas das alterações climáticas. Isso inclui 1) medidas de biossegurança para evitar a introdução de espécies invasoras em novas regiões como resultado das alterações climáticas e 2) medidas de resposta rápida para monitorizar e erradicar espécies exóticas que se podem tornar invasoras devido às alterações climáticas.

 

Qual é o problema?

Ao longo das últimas décadas, a globalização aumentou o movimento de pessoas e bens em todo o mundo, levando a um aumento no número de espécies introduzidas em áreas fora das suas áreas naturais. Um estudo de 2017 na revista Nature Communications revelou que mais de um terço de todas as introduções nos últimos 200 anos ocorreram após 1970 e a taxa de introdução não mostra sinais de desaceleração.

Uma espécie exótica é um animal, planta ou outro organismo que é introduzido pelo Homem, intencional ou acidentalmente, em locais fora da sua área de distribuição natural. Algumas espécies exóticas – as que são classificadas como “invasoras” – estabelecem-se e afetam negativamente a biodiversidade nativa, bem como os serviços dos ecossistemas dos quais os humanos dependem.

(Esq.) O jacinto-de-água (Eichhornia crassipes), originário da América do Sul, é actualmente uma das piores plantas invasoras a nível mundial, incluindo em Portugal. Forma coberturas densas na superfície dos corpos de água doce. As suas populações podem duplicar em apenas 12 dias, bloqueando vias navegáveis, limitando o tráfego de barcos, e afetando a pesca e o comércio [fotos de Célia Laranjeira (topo) e Lísia Lopes (baixo)]. (Dir.) O rato-preto (Rattus rattus) é um animal invasor em muitos locais do mundo. Está frequentemente associado à diminuição significativa de aves nas ilhas e transmite bactérias, através de pulgas, em algumas regiões do Mundo.

O impacte das espécies exóticas invasoras pode ser agravado pelas alterações climáticas – a mudança no clima da Terra devido ao aumento das emissões de gases de efeito estufa.

Eventos climáticos extremos resultantes das alterações climáticas, como furacões, inundações e secas, podem transportar espécies invasoras para novas áreas e diminuir a resistência de alguns habitats às invasões. As alterações climáticas também estão a abrir novos caminhos de introdução de espécies invasoras. Por exemplo, as passagens de transportes do Ártico, que estão a surgir devido ao derretimento das calotes de gelo, reduzirão o tempo necessário para os navios viajarem da Ásia para a Europa. Isso aumentará o risco de algumas espécies exóticas sobreviverem à jornada.

Muitas espécies invasoras têm a capacidade de se expandir rapidamente para latitudes e altitudes mais altas à medida que o clima aquece, substituindo espécies nativas. As espécies exóticas que são regularmente introduzidas pelo Homem, mas que até agora não conseguiram estabelecer-se, podem vir a conseguir fazê-lo graças às alterações climáticas, criando-se assim novas invasoras.

Alguns habitats, como florestas temperadas e sistemas de água-doce que atualmente possuem barreiras térmicas que limitam o estabelecimento de espécies invasoras, poderão tornar-se mais adequados para espécies exóticas à medida que o clima muda.

 

Porque é importante?

O aumento e a redistribuição geográfica das espécies invasoras terão diversos impactes sociais e ambientais. As invasões biológicas são uma grande ameaça para a segurança alimentar mundial e para os meios de subsistência, sendo os países em desenvolvimento os mais suscetíveis. Estes países, que têm níveis elevados de agricultura de subsistência e de pequenos agricultores, muitas vezes não têm capacidade para prevenir e gerir os problemas causados pelas invasões biológicas.

As espécies exóticas invasoras reduzem a resiliência dos habitats naturais, tornando-os mais vulneráveis ​​aos impactes das alterações climáticas. Por exemplo, algumas espécies herbáceas e árvores que se tornaram invasoras podem alterar significativamente os regimes de fogo, especialmente em áreas que se estão a tornar mais quentes e secas. Isso aumenta a frequência e gravidade dos incêndios florestais e coloca em risco habitats, áreas urbanas e vidas humanas. As espécies invasoras também podem afetar os sistemas agrícolas, reduzindo as colheitas e a saúde animal.

Os custos económicos das espécies invasoras e da sua gestão são da ordem de biliões de US $ anualmente; estima-se que os insetos exóticos invasores custem à economia global mais de US $ 70 biliões por ano.

As invasões biológicas estão entre os principais fatores de perda de biodiversidade e extinções de espécies em todo o mundo. Um estudo de 2016 publicado na revista Biological Letters mostrou que as espécies invasoras são a segunda ameaça mais frequentemente associada a espécies que se extinguiram desde 1500.

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Ao converter o pântano em águas abertas, o ratão-do-banhado (Myocastor coypus, espécie Sul Americana que se tornou invasora em muitos locais da Europa, América do Norte, Ásia e África), pode diminuir a capacidade das zonas húmidas costeiras de controlar as inundações. O controlo efetivo e a erradicação desta espécie invasora pode, portanto, aumentar a resiliência das zonas húmidas às mudanças climáticas. © Greg Schechter (CC BY 2.0)

 

O que pode ser feito?

Como os impactes das espécies exóticas invasoras são cada vez mais agravados por um clima em mudança, as respostas políticas abordando estas questões precisam ter em consideração as ligações entre os dois problemas. As políticas de alterações climáticas podem incorporar espécies exóticas invasoras, incluindo a sua prevenção e o seu controlo e garantindo que as medidas para enfrentar as alterações climáticas não aumentam a ameaça destas espécies. Por exemplo, espécies de árvores nativas devem ser usadas para sequestro de carbono ou controlo da erosão em vez de espécies introduzidas, como acácia ou eucaliptos, que ocorrem fora da sua área de distribuição nativa. As alterações climáticas também devem ser incorporadas explicitamente nas avaliações de risco das espécies exóticas invasoras, para ajudar a identificar as espécies exóticas que se podem tornar uma ameaça no futuro.

Os ecossistemas precisam ser priorizados de acordo com a sua vulnerabilidade às alterações climáticas e às espécies invasoras, permitindo estabelecer medidas que impeçam a introdução de espécies invasoras. Isso deve incluir o estabelecimento de medidas efetivas de biossegurança para gerir as vias prioritárias de introdução, apoiadas por sistemas de alerta precoce e erradicação rápida para combater espécies exóticas antes que elas se revelem invasoras.

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Respostas apropriadas às espécies invasoras em diferentes estádios de invasão – (Adaptado do Quadro de Políticas de Plantas e Animais Invasores, Departamento de Indústrias Primárias do Estado de Victoria, 2010)

 

Para melhorar a resiliência dos ecossistemas a um clima em mudança, os ecossistemas que já estão ameaçados pelas espécies exóticas invasoras precisam ser priorizados para o seu controlo ou erradicação.

E, finalmente, as espécies exóticas que têm maior probabilidade de se tornar invasoras devido às alterações  climáticas (“dormentes”) precisam ser identificadas e erradicadas ou controladas antes que se dispersem e se tornem invasoras.

Mais informações:

Base de Dados de Espécies Invasoras Globais da UICN (GISD), iucngisd.org

Grupo Especialista em Espécies Invasoras da UICN SSC (ISSG), issg.org

Registo Global de Espécies Introduzidas e Invasoras (GRIIS), griis.org

Desafio de Honolulu sobre Espécies Exóticas Invasoras, iucn.org/honolulu-challenge

Esquema de Classificação de Impacto Ambiental de taxa Exóticos (EICAT), iucn.org/eicat

Convenção sobre a Diversidade Biológica (CBD) Aichi Meta 9 sobre espécies exóticas invasoras

Seção IAS no relatório do IPCC Alterações Climáticas 2014: Impactes, Adaptação e Vulnerabilidade

 

NOTA extra: A rede Biodiversa também disponibilizou recentemente um “New policy brief on Alien Invasive Species

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