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Fogo e plantas invasoras

Do rescaldo ao renascer das cinzas

Uma área muito extensa de Portugal ardeu nas últimas semanas e meses. O fogo trouxe coisas más demais. Perderam-se vidas que jamais serão repostas. Perderam-se bens e recursos que o serão com mais ou menos esforço. Arderam também importantes florestas e espaços naturais de grande valor a vários níveis. Algumas das comunidades vegetais simplesmente vão começar a recuperar lentamente sozinhas – afinal, grande parte do nosso país tem vegetação adaptada a clima mediterrânico e como tal o fogo faz parte da dinâmica natural de muitos destes ecossistemas (não de todos). Algumas áreas vão precisar de ajuda para recuperar da melhor forma.

De fogo percebemos pouco, mas de plantas invasoras associadas ao fogo percebemos alguma coisa e é sobre elas que escrevemos a seguir.

 

Como regenerar áreas invadidas que arderam

Muitas áreas ardidas tinham plantas invasoras e a essas há que ajudá-las, a seu tempo (não já!), controlando as plantas invasoras que vão (re)aparecer. Questões de erosão do solo e outras podem ser primordiais, pelo que o controlo das invasoras deve ter isso em conta e ser enquadrado em planos gerais de gestão (não focados exclusivamente nas invasoras, mas não as ignorando!), preferencialmente acompanhados por técnicos especializados. Ou seja, é preciso ir avaliando o que recupera nas áreas e adaptar a gestão de forma a aumentar a hipótese de sobrevivência das espécies que escolhermos para o futuro (quer plantadas, semeadas ou que regenerem naturalmente).

Será muito difícil (quase impossível!) agir em todas as áreas onde vão surgir plantas invasoras, mas naquelas que forem priorizadas, gerir o problema terá que incluir o controlo das plantas invasoras (muitas vezes primeiro), impedindo que elas re-invadam e ameacem a recuperação das outras espécies.

Por esta e outras razões *, em muitas situações começar a fazer plantações agora é prematuro e não é a melhor solução. 

 

Há plantas invasoras que beneficiam com o fogo.

1) Várias das plantas invasoras que estão mais dispersas e causam mais problemas em Portugal, por exemplo, as acácias e as háqueas, são pirófitas (i.e., estão adaptadas ao fogo e beneficiam da sua ocorrência). Essa adaptação é diferente nas diferentes espécies e isso precisa ser tido em conta na gestão pós-fogo (e gestão em geral);

fogo e invasoras

Exemplos de plantas invasoras presentes em Portugal que têm características de adaptação ao fogo: (da esq. para a dir.) acácia-de-espigas (Acacia longifolia) e mimosa (Acacia dealbata) cuja germinação das sementes é estimulada pelo fogo; háquea-picante (Hakea sericea), cuja abertura dos frutos (e posterior dispersão) é estimulada pelo fogo.

 

2) Várias espécies de acácias [principalmente acácia-de-espigas (Acacia longifolia) no litoral, mimosa (Acacia dealbata) e austrálias (Acacia melanoxylon) mais no interior, mas também outras acácias (Acacia retinodes, Acacia saligna, etc.)] e háqueas [principalmente háquea-picante (Hakea sericea), mas também háquea-folhas-de-salgueiro (Hakea salicifolia)] estavam presentes em muitas das áreas atingidas pelos incêndios deste ano, em algumas situações com grandes densidades e extensões;

fogo e invasoas

Recorte da Região Centro de Portugal: (esq.) Mapa de avistamentos de plantas invasoras onde estão assinaladas algumas acácias e háqueas (está incompleto!). (dir.) Imagem de satélite, aproximadamente da mesma área, de 19 de Outubro 2017, onde estão representadas a escuro as zonas queimadas.

 

3) A maioria das espécies de acácia acumula sementes no SOLO (banco de sementes), em grande número (por vezes muitos milhares por m/2). Estas sementes podem permanecer viáveis no solo durante muitos anos e a sua germinação é estimulada pelo fogo. Dependendo da profundidade a que estavam as sementes, e das temperaturas que o fogo atingiu em cada local, algumas sementes podem ter sido destruídas mas é expectável que muitas venham a germinar e a facilitar a re-invasão das áreas onde ocorriam; a rapidez com que o farão vai depender de várias condições, como a disponibilidade de água e temperaturas que se venham a verificar;

4) As espécies de háqueas acumulam bancos de sementes ARBÓREOS, muito numerosos, sendo a abertura dos frutos, e consequentemente a dispersão das sementes, estimulada pelo fogo. Fogos que tenham atingindo temperaturas muito elevadas podem ter destruído alguns frutos/ sementes, mas é previsível que em muitas situações tenham apenas aberto os frutos e estimulado a dispersão das sementes. Ou seja, as sementes foram catapultadas, frequentemente a vários metros de distância, à volta das plantas-mãe e ao germinar vão re-invadir as áreas onde estavam e aumentar muito a área invadida (tal como se viu depois de muitos incêndios dos últimos anos);

fogo e invasoras

Frutos e plântulas de espécies invasoras pirófitas: (da esq. para a dir.) Solo coberto por vagens de mimosa – a maioria das sementes caiu ao solo e foi acumulada no banco de sementes. Área coberta por um tapete de acácia-de-espigas jovem, pouco tempo após a germinação em massa. Frutos de háquea-picante abertos aquando de um incêndio (Foto: Ana Eira). Aspecto de uma plântula de háquea-picante, logo após a germinação.

 

5) As elevadas taxas de crescimento e/ou dispersão destas e de outras espécies de plantas invasoras presentes nas áreas ardidas permitem prever que em muitas situações estas se irão estabelecer mais rapidamente do que outras espécies que regenerem naturalmente e/ou venham a ser plantadas ou semeadas. É por isso crucial adaptar as medidas de recuperação (sementeiras, plantações – que não deveriam ocorrer já, mas antes esperar pela revelação das espécies que vão surgir) ao desenvolvimento das plantas invasoras que surgirem, de forma a não colocar em risco outras medidas de gestão;

6) As respostas rápidas e adaptativas, tão precoces quanto possível (mas que deverão esperar para ver que espécies vão regenerar), são fundamentais na gestão de espécies invasoras, de forma a conter o estabelecimento e expansão dessas espécies da melhor forma. Os incêndios foram uma tragédia a muitos níveis, desde humano, social, económico, ecológico, mas se aconteceram é preciso agora adaptar a gestão a essa realidade e aproveitá-los para gerir as plantas invasoras antes que cresçam de novo e seja muito mais difícil lidar com elas.

7) Jovens plântulas que germinaram há pouco tempo (o que não se aplica a plantas que tenham rebentado de raízes ou touças – é preciso avaliar!), ainda não têm reservas armazenadas nas partes subterrâneas que lhes permitam rebentar vigorosamente. Está aqui uma janela de oportunidade para intervir! Antes que as plantas cresçam muito, mas já depois de terem morrido aquelas que não vingariam (deixemo-las ajudar-nos!), devem ser eliminadas, utilizando metodologias adaptadas ao contexto e recursos disponíveis; por exemplo, corte com motorroçadora (antes que atinjam um palmo!), arranque em ações de voluntariado, pastoreio, etc. Nas acácias, se se aplicar corte com motorroçadora, é particularmente importante a referência do “palmo” – depois disso aumenta a probabilidade de rebentarem!

8) Em qualquer das situações, se as acções de controlo se atrasarem, o que é essencial é que as plantas invasoras nunca cresçam o suficiente para voltar a formar sementes. Caso contrário, estará recriado o ciclo da sua regeneração.

9) No caso das acácias, e dependendo do tamanho de banco de sementes no solo, o surgimento de novas plântulas por germinação das sementes que ainda tenham ficado no solo pode voltar a ocorrer depois das primeiras intervenções.

10) Apesar de não ser muito frequente, algumas acácias  sobrevivem à passagem do fogo e recuperam depois – a eliminação destas plantas também deve ser considerada a par com outras medidas de recuperação das áreas. Dependendo dos contextos, podem controlar-se através de descasque (mas pode não ser possível se estiverem parcialmente secas), corte (mas é provável que voltem a rebentar, exigindo ações de controlo posteriores), corte+herbicida (com todos os cuidados necessários e só quando for justificável e possível), etc.

11) No caso da acácia-de-espigas, apesar de algumas das áreas de libertação do agente de controlo biológico terem ardido, esperamos que à medida que o agente se vá estabelecendo este ajude a conter algumas das plantas mais jovens e a diminuir a produção de sementes nas adultas; mas será sempre a longo-prazo.

ardido

Aspeto de áreas ardidas onde existiam acácias: (da esq. para dir) Vagens de austrália parcialmente queimadas (Foto: Jael Palhas); área com acácia-de-espigas queimada (Foto: Nuno César de Sá); área de pinhal e acácia-de-espigas queimadas (Foto: Francisco López-Núñez).

 

Resumindo:

É expectável que venha a agravar-se a invasão por espécies de plantas exóticas pirófitas (principalmente, acácias e háqueas) em muitas das áreas ardidas, de forma mais ou menos rápida dependendo das condições climáticas que se verificarem.

Se a sua gestão não for considerada de uma forma pro-activa, essa invasão não só ocupará áreas muito extensas (previamente invadidas ou novas áreas onde o banco de sementes existia/ passou a existir) mas poderá mesmo colocar em risco o sucesso de ações (plantações, sementeiras, acções facilitadoras das plantas existentes, etc.) de recuperação. É essencial que esta gestão seja adaptada à resposta das plantas (tanto invasoras como nativas) e planeada a longo-prazo. Uma só intervenção de controlo muito raramente (para não dizer nunca) é suficiente para controlar uma planta invasora.

Se localizar espécies de plantas invasoras a surgir me áreas queimadas, ou sabe de áreas que tinham invasoras antes dos incêndios recentes, por favor, preencha a informação neste formulário. Obrigado!

 

* Algumas leituras/podcast sugeridos (não exaustivo! Podem sugerir-nos outros para adicionarmos aqui) sobre o que fazer/não fazer a seguir ao fogo:

A refloresta do país. Que erros não devem ser cometidos – podcast Antena Aberta 25 Outubro

Mexer agora nas cinzas pode ser pior que os incêndios

Risco agora é a erosão dos solos e a contaminação da água

FOGO: O QUE MUDOU NO SOLO E O QUE DEVEMOS FAZER PARA O RECUPERAR

Depois do fogo – Associação Montis

Áreas Florestais Ardidas: Recomendações para proteção do solo contra a erosão – CM Oliveira do Hospital

Recomendações para proteção do solo em áreas ardidas – CM Seia (

Esclarecimento da CAULE – Associação Florestal

Guia de actuações numa zona queimada e Por qué es una mala idea salir a sembrar semillas después de un incendio (Espanha)

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